O
físico Fritjof Capra destacou a importância da transversalidade
das questões ecológicas nas políticas públicas
na abertura dos Diálogos para um Brasil Sustentável,
que acontecem até o dia 15 de agosto, em Brasília (DF),
com a participação de uma rede internacional de ecologistas.
“A sustentabilidade só pode acontecer se for implementada
simultaneamente em diversas áreas. A transversalidade é
uma enorme tarefa. É preciso compreender o principal princípio
da ecologia: a vida não surgiu no planeta pela competição,
mas através da cooperação, das parcerias e da
formação de redes”, alertou Capra.
A
ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, destacou que a transversalidade
e o controle social são alguns dos princípios que orientam
o trabalho do Ministério. “Sem a transversalidade será
muito difícil termos políticas públicas do conjunto
do Governo que contemplem o desafio da sustentabilidade social, cultural,
política, social e ambiental. Deste desafio não podemos
abrir mão”, disse.
A
importância do controle social também foi destacada:
“Fazer uma política com a participação
da sociedade é manter o governo aberto para receber e ofertar
contribuições que podem criar um terceiro produto, uma
nova síntese. A realização destes Diálogos
é uma sinalização clara de que queremos que as
políticas tenham esta contribuição e a participação
positiva da sociedade”, afirmou.
“Esta
rede mundial de ecologistas está aqui para nos ajudar a tornar
o nosso sonho realidade. A ajuda virá para que possamos fazer
com que esta carga de esperança, de dificuldades e de sonhos
possa ser compartilhada com muitas pessoas, em muitos lugares do mundo,
com muitos olhares, muitos saberes para fazer a melhor síntese
no sentido da preservação da vida”, afirmou Marina
Silva.
Para
o Secretário de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável
do Ministério do Meio Ambiente, Gilney Viana, “esta reunião
de trabalho promete inaugurar uma série de diálogos
internacional para um Brasil sustentável para nos ajudar a
superar os desafios que nos são colocados”.
A
representante do Instituto Ecoar, Miriam Dualibi, uma das coordenadores
do evento, acredita que é possível fazer do Brasil um
grande exemplo para o planeta. “Estamos promovendo a união
deste conhecimento que já existe no Brasil com o conhecimento
de cientistas e pensadores estrangeiros que também tem pautado
a sua vida em busca da sustentabilidade para contribuir com a formação
desta grande rede global em busca de caminhos sustentáveis”,
explica.
“É
inimaginável pensar que podemos mudar sozinhos. Nós
que construímos, progressivamente, o Fórum Social Mundial,
afirmamos que um outro mundo só será possível
se juntarmos esforços internacionais, as inteligências,
as vontades, os movimentos, organizações e setores empresariais
que realmente querem mudanças”, defendeu Jean Pierre
Leroy, do Programa Brasil Sustentável e Democrático.
Os
Diálogos para um Brasil Sustentável foram propostos
no início do ano durante o 3º Fórum Social Mundial,
em Porto Alegre (RS), quando Fritjof Capra manifestou à ministra
do Meio Ambiente, Marina Silva, a sua motivação de ajudar
o Brasil, mobilizando pessoas no mundo inteiro. O evento é
uma parceria entre o Ministério do Meio Ambiente, Fritjof Capra,
Instituto Ecoar e Programa Brasil Democrático e Sustentável.
Ética
Ecológica na Política
A seguir, os principais trechos da apresentação do físico
e teórico de sistemas Fritjof Capra na abertura dos Diálogos
para um Brasil Sustentável, que acontecem em Brasília
até 15 de agosto.
“Formular
políticas para um Brasil sustentável significa introduzir
uma nova dimensão ética na política. A ética
ecológica é um padrão de comportamento que flui
através da percepção de que todos pertencemos
à comunidade global da biosfera. E nós devemos nos comportar
como os outros seres vivos – as plantas, os animais e os microorganismos
que formam esta vasta rede da vida, sem interferir com a capacidade
surpreendente desta rede de sustentar a vida”.
“Uma
comunidade sustentável é organizada de maneira a promover
a vida, os negócios, a economia, infra-estrutura e tecnologia
sem interferir com a herança da natureza de sustentar a vida.
O primeiro passo deste desafio é entender o princípio
da organização dos ecossistemas para sustentar a rede
da vida. Quando estudamos os princípios básicos da ecologia,
descobrimos que eles são os princípios de organização
de todos os sistemas vivos. Todos os organismos vivos dependem de
um fluxo contínuo de energia e matéria, e todos produzem
lixo, mas o lixo de uma espécie é o alimento de outra.
A energia que move os ciclos ecológicos flui do sol. A rede
é o padrão básico de organização
da vida. Desde o princípio, há mais de três bilhões
de anos, a vida surgiu no planeta não através da competição,
mas através da cooperação, de parcerias e da
formação de redes.”
“A
natureza sustenta a vida criando e nutrindo as comunidades. Nenhum
organismo sobrevive isolado. Os animais dependem da fotossíntese
das plantas, as plantas dependem do dióxido de carbono produzido
pelos animais, bem como do nitrogênio fixado pelas bactérias
e raízes, e juntos as plantas, animais e microorganismos regulam
toda a biosfera e mantém as condições que mantém
a vida”.
“A
sustentabilidade não é uma propriedade individual, mas
uma propriedade de uma rede inteira de relações. Ela
sempre envolve toda a comunidade. Esta é a lição
profunda que precisamos aprender da natureza. O modo de sustentar
a vida é construir e manter comunidades. As comunidades interagem
entre si. A sustentabilidade é um processo dinâmico de
evolução conjunta. Ela inclui o respeito à integridade
cultural e ao direito básico de autodeterminação
e auto-organização das comunidades. Isto significa que
a sustentabilidade ecológica e a justiça econômica
são interdependentes. São dois lados da mesma moeda”.
“O
fato de a sustentabilidade ser uma propriedade de uma rede inteira
de relações significa que a sustentabilidade do Brasil
não pode ser implementada mudando apenas a política
energética, ou os subsídios para a agricultura. Ela
só pode acontecer se for implementada simultaneamente em diversas
áreas. A transversalidade é uma enorme tarefa, e só
obteremos sucesso se realmente compreendermos o principal princípio
da ecologia: a vida não surgiu no planeta pela competição,
mas através da cooperação, parcerias e formação
de redes”.
(MMA)