Com qualidade e criatividade, fabricantes de selas movimentam um mercado de R$ 174,6 milhões
Fonte: Jornal Estado de Minas - Em 24/07/2006
No lombo de cavalos, mulas e burros, as selas atravessaram gerações e cruzaram o país. Antes, sua principal finalidade era o trabalho e o transporte. Hoje, são vendidas mais para o esporte e o lazer. O tempo passou, mas o mercado das selas para montaria continua forte. A diferença é que, em tempos modernos, só se mantêm no negócio artesãos ou empresas que primam pela qualidade e criatividade. São esses que já conquistam clientes no exterior e movimentam, no país, R$ 174,6 milhões por ano, de acordo com o levantamento inédito feito pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), a partir de encomenda da Comissão Nacional do Cavalo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
A indústria de selas emprega 12 mil pessoas em todo o país e é constituída principalmente por micro e pequenas empresas. Mas também já conta com 20 selarias de maior porte. Segundo o vice-presidente executivo da CNA e presidente da Comissão Nacional do Cavalo, Pio Guerra, o levantamento mostrou que 70% do preço da sela estão relacionados ao custo da mão-de-obra. “Aparentemente a sela pode ser uma peça vista por muitos como supérflua. Mas com esses números conseguimos observar que ela tem um custo social muito importante”, reforça.
O artesão Charles Oliveira Costa, é um exemplo, de profissional que tira seu sustento da produção de selas desde que nasceu. Seu pai, Antenor de Oliveira, já era seleiro desde quando morava em Cárceres, no Mato Grosso. Sem abandonar a profissão, que aprendeu ainda criança, ele passou pela Bahia e acabou em Minas Gerais, onde passou todo seu conhecimento para o filho. Até 2003, Charles Costa foi funcionário de selarias e trabalhou como autônomo. Depois disso decidiu apostar no mercado e abriu a Selaria Rancho da Independência, em Belo Horizonte. Desde que começou a trabalhar “por conta própria” 400 selas já passaram por suas mãos. Agora, ele aposta no crescimento do negócio e prepara sua primeira expansão para os próximos meses, junto com o cliente que se transformou em sócio Ricardo Sobreira Silva Araújo. Charles chega a produzir uma sela mais simples em três dias. As mais trabalhadas são feitas em até uma semana. Segundo ele, esse mercado cresce, em média, 10% ao ano. Além de agora ter selas para pronta entrega, Charles Costa faz peças personalizadas “de acordo com a vontade do cliente” e reformas. Na selaria há opções que variam de R$ 420 (baiana, com cabeça, parecida com arreio e voltada para trabalhos) até R$ 950, preço da americana ou texana, maior e mais trabalhada, bem apreciada por criadores de cavalo quarto-de-milha. “Fazemos qualquer modelo, mas uma das que tem maior saída é a australiana mangalarga, que serve tanto para trabalho quanto para passeio e custa, em média, R$ 680”, conta. Ele também faz reformas, que custam a partir de R$ 80, para dar vida a selas e arreios que foram de pais e até avôs de seus novos clientes.
Criatividade e conforto garantem mais clientes
O proprietário da Selaria Profeta, de Congonhas, Roberto Carlos Machado, que está no negócio há nove anos, diz que o mercado já teve épocas melhores. Agora, ele aposta na criatividade para manter vendas e clientes. No ano passado, por exemplo, ele desenvolveu e patenteou a sela dupla, com dois assentos. “O mercado é carente de novidades que ofereçam conforto, praticidade e exotismo”, garante. A dupla, por exemplo, pode ser usada por casais, pais com os filhos e por professores de escolas de equitação. Elas custam de R$ 690 até R$ 1.490, dependendo do acabamento. Ele também está lançando uma sela com encosto e cinto de segurança, para portadores de deficiência, que custa R$ 1.990.
O sócio da Selaria América, de Perdões, Roberto Souza Campos, acredita que o futuro do mercado está em inovações tecnológicas e específicas para cada função. Seu lançamento, este ano, é da sela CTE Esporte, mais versátil, indicada para cavalgadas e que oferece o conforto para o cavalo e para o cavaleiro. “Temos de ser criativos, inventar modelos, ter diferencial. Mas o mais importante é manter a qualidade”, garante.
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