Após a crise financeira internacional, mineiros de Governador Valadares estão retornando ao Brasil para montar seu próprio negócio; Programa Remessa e Sociedades de Garantia de Crédito atuarão como suporte nesse processo
Regina Xeyla
O empresário José Alberto Costa, mais conhecido entre amigos e clientes como ‘Branco’, faz parte do grupo de imigrantes que retornou ao país de origem após a crise financeira internacional que teve início no segundo semestre de 2008. Ele morava em Boston, Massachussets nos Estados Unidos, há 20 anos e se viu obrigado a retornar para o Brasil deixando para trás o sonho de 'fazer a América'. Aqui a economia se mostrou mais favorável antes, durante e depois da crise. Branco decidiu investir o dinheiro conquistado ao longo dos anos nos Estados Unidos em seu próprio negócio no Brasil.
O empresário é morador de Governador Valadares, Minas Gerais. A cidade é conhecida pelo fenômeno de emigração valadarense. Assim como Branco, grande parte dos imigrantes toma a direção da região de Boston. São pessoas que vão para os Estados Unidos em busca de melhores oportunidades de trabalho. O dinheiro americano conquistado, em grande parte, é remetido para as famílias que ficam no Brasil. Essas investem principalmente na concretização do sonho da casa própria, beneficiando o setor da construção civil.
Hoje o Produto Interno Bruto (PIB) de Governador Valadares é de R$ 2 bilhões. O mesmo valor é contabilizado no PIB informal, formado pela moeda americana, conhecida localmente como ‘Valadólares’. A crise financeira internacional ocasionou forte impacto econômico e social na cidade, já que desencadeou redução de envio de dólares para o Brasil e desvalorizou o preço das commodities, principal característica comercial da região. A saída de quem estava nos Estados Unidos foi voltar para o Brasil e investir suas reservas em negócios próprios.
No primeiro trimestre de 2009, o volume de dinheiro enviado pelos 4 milhões de brasileiros que trabalham fora do País teve a maior queda da história em comparação com o trimestre anterior. De acordo com o Banco Central, o recuo foi de 31,5%. No total, foram enviados US$ 592 milhões. Na comparação com o primeiro trimestre de 2008, houve uma queda de 14,6%. Do total de imigrantes brasileiros, cerca de 10 mil são de Governador Valadares.
Recomeço e falta de crédito
Branco é pai de cinco filhas, três brasileiras e duas naturalizadas americanas. O imigrante, ao ver a redução da demanda de serviço em 50% na loja de manutenção de carros em que trabalhava, tratou de voltar para sua terra natal. Ele conta que nos Estados Unidos houve diminuição de oferta de queda no fluxo de trabalho e aumento do custo de vida. O empresário conseguiu juntar, nos últimos noves meses em que esteve nos Estados Unidos, cerca de R$ 80 mil e muito conhecimento na área de mecânica automotiva.
O dinheiro economizado e o conhecimento adquirido facilitaram o recomeço de vida no Brasil. Branco já tinha três imóveis em Governador Valadares. Em um deles, há sete meses, ele abriu a empresa Costa Pneus Ltda. Seu negócio está indo muito bem. Ele lamenta o comportamento das instituições financeiras brasileiras no apoio ao pequeno empresário. “Não consegui acessar linhas de crédito para expandir minha empresa. Tenho três imóveis, que são garantias reais, mas, mesmo assim, um banco público local me negou o crédito. A justificativa foi o fato da empresa estar em funcionamento há menos de um ano. Meu objetivo era ampliar o negócio e gerar novos postos de trabalho”, lamenta Branco. Ele também lamenta “não ter buscado orientação antes de montar seu negócio”.
Orientação de qualidade
O problema enfrentado por Branco e pelos demais empresários locais pode estar com os dias contados. Isso porque, no dia 10 de novembro, foi inaugurada a Sociedade Solidária de Garantia de Crédito do Leste de Minas (SSGC) em Governador Valadares. Trata-se de mecanismo garantidor considerado relativamente novo no Brasil. Atualmente existe apenas uma SGC no Brasil, localizada na Serra Gaúcha, a Garantiserra. As SGC contam com recursos públicos, privados e dos próprios empresários, que são responsáveis por sua gestão. As SGC também proporcionam, entre outros aspectos, o crédito orientado.
Com relação à orientação, os empresários de Governador Valadares dispõem, desde 2006, do Programa de Remessas e Capacitação para Imigrantes Brasileiros e seus Beneficiários no Brasil. Elaborado pela Caixa Economia Federal e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o programa é voltado para os imigrantes brasileiros residentes na região de Massachussets, EUA, originários de Governador Valadares. O Sebrae passou a integrar a ação em 2007. “A Instituição apóia a capacitação empreendedora dos que já retornaram ao Brasil, com cursos presenciais e consultorias, e dos que ainda estão fora, por meio de cursos a distância”, explica Alanni de Lacerda Barbosa, do Sebrae em Minas Gerais.
O empresário Hedman Marcelo Lacerda Lima voltou há cinco anos dos Estados Unidos. Inicialmente ele optou por investir em algo que tinha aptidão. Montou uma empresa de transportes. O negócio não deu certo. Hedman atribui a falência a uma série de fatores, entre eles, a falta de orientação. Mas o empresário não desistiu e comprou uma loja de artigos domésticos, já aberta. A empresa emprega sete pessoas. “Um amigo me falou do Programa Remessa. Tive a oportunidade de ampliar minha visão. Aprendi a calcular os preços das mercadorias e conhecer melhor meu cliente”, explica. Além dos cursos, Hedman já recebeu sua primeira consultoria.
Fonte: Agência Sebrae de Notícias - em 13/11/2009
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